Obstetra especialista em alto risco alerta sobre cuidados antes e durante a gestação

A internação de Eliana após um descolamento de placenta, aos cinco meses de gravidez da segunda filha, Manuela, deixou muitas mulheres preocupadas. Sem uma causa específica, o que acometeu a apresentadora é apenas um entre vários imprevistos. Eles não são comuns, mas possíveis de acontecer, evitar e/ou monitorar. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 303 mil mulheres e 2,6 milhões de bebês morreram por intercorrências relacionadas à gravidez, somente em 2015.

“Existem dois tipos: de início precoce e de início tardio. É possível a gestação começar tranquila e uma complicação se desenvolver somente no segundo ou terceiro trimestre. Os principais indicadores de uma gestação de risco antecedem à gravidez: hipertensão, colagenoses, endocrinopatias, problemas cardíacos, diabetes, entre outros. E há complicações específicas, que se desenvolvem durante a gravidez, como o descolamento de placenta, a placenta prévia, o trabalho de parto prematuro, por exemplo. Várias delas estão relacionadas”, diz a pós-doutora em ginecologia e obstetrícia Melania Amorim, 49. “Podemos ter, por exemplo, pré-eclâmpsia somente após as 34 semanas. Já o diabetes pode se desenvolver e diagnosticado habitualmente, enquanto um descolamento de placenta pode ocorrer tardiamente”, completa.

De acordo com a médica, os perigos variam conforme o tipo de complicação. No caso de mães hipertensas, há risco de restrição do crescimento do bebê pela insuficiência placentária e de parto prematuro; para a mulher, a eclâmpsia grave pode levar às crises convulsivas e até a morte. Quando se trata de diabetes, existem diferenças entre as gestantes que já tinham a patologia em relação as que desenvolvem somente durante a gravidez.

“Pode existir pré-eclâmpsia de início precoce, antes de 34 semanas, e pré-eclâmpsia de início tardio após 34 semanas. A pré-eclâmpsia de início precoce é até mais perigosa com aumento dos riscos para o binômio mãe-bebê. No caso de diabetes gestacional, há o risco de bebês macrossômicos (muito grandes) e de complicações metabólicas (hipoglicemia ou hiperglicemia). A diabetes, principalmente do Tipo 1, também pode descompensar na gravidez, com mais risco de cetoacidose”, explica, ao ressaltar os cuidados de quem deseja ser mãe e já tem uma complicação pré-existente. “O ideal é que a gravidez seja planejada, que ela possa receber ácido fólico e substituir as medicações que tragam riscos ao bebê”, enfatiza.

Ainda segundo a especialista, também membro de comitês especializados de “Medicina Baseada em Evidências” e “Gestação de Alto-Risco” da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), é preciso começar o pré-natal precocemente, com profissionais qualificados para garantir um acompanhamento cauteloso. Além disso, diabéticas e hipertensas precisam, respectivamente, estar com a glicemia e a pressão sob controle. Já intercorrências que se desenvolvem durante a gravidez deverão ter cuidados especiais.

“O pré-natal de alto risco se distingue de um de risco habitual, com recomendações específicas. No caso de epiléticas, que estejam sem ter crises e com as melhores medicações possíveis, porque algumas drogas anti-epiléticas têm elevado risco de causar danos ou más formações ao embrião. As hipertensas crônicas também devem prevenir uma pré-eclâmpsia. Por volta de 12 semanas de gestação, indicamos iniciar a profilaxia com aspirina e cálcio para prevenção”, afirma Melania.

A PhD, ressalta, que tanto pré-eclâmpsia, quanto diabetes podem ser indicações para antecipar o nascimento. Porém, se mãe e bebê estão bem, não há indicação de urgência para a interrupção da gravidez e a indução poderá ser realizada na hora adequada. Lembrando que há casos individuais para indução do parto, enquanto a necessidade de intervenção cirúrgica é mínima e deve ser evitada por conta dos riscos de morbidade.

“Com a pré-eclâmpsia grave, vamos interromper a gravidez com 34 semanas, mesmo que não tenha outro fator complicador. Na pré-eclampsia sem outros fatores de gravidade, vamos interromper com 37 semanas. Se for diabetes gestacional, podemos esperar o termo, porque não se distingue da gestação normal (se a glicemia estiver bem controlada). Mas se é diabetes clínico, que precise de insulina, sem o controle glicêmico adequado, teremos que antecipar o parto com 38 semanas, devido ao risco de intercorrências”, explica. “Não se deve confundir indicação da interrupção da gravidez com cesariana, que tem indicações específicas. A indução é até mais interessante, porque em várias circunstâncias a cesárea acarretará risco aumentado para mãe e bebê. Mas é necessário monitorar rigorosamente a vitalidade fetal durante a indução”, finaliza.

Intercorrências

  • Pré-Eclâmpsia: complicação grave associada ao descontrole da pressão arterial da mãe.
  • Diabetes gestacional: problema metabólico de intolerância aos carboidratos.
  • Placenta prévia: implantação da placenta na porção mais baixa da cavidade uterina.
  • Colagenoses: grupo de doenças autoimunes; afecções inflamatórias e degenerativas das fibras do tecido conjuntivo, como lupus.
  • Endocrinopatias: doenças da glândula tireóide; doenças de regulação de glicose e de secreção pancreática interna; e de outras glândulas.
  • Cetoacidose diabética: complicação aguda do diabetes mellitus caracterizada por hiperglicemia, acidose metabólica, desidratação e cetose.
  • Descolamento de placenta: quando a placenta se descola do útero; não existe uma causa específica, mas fatores de risco comum, como hipertensão e idade elevada da mãe (acima de 40 anos).
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