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‘Quem vai fazer meu parto?’

Quando uma mulher engravida, sendo a primeira vez ou não, uma lista começa a ser feita. É preciso comprar o enxoval, montar o quartinho, escolher um nome, planejar o chá de bebê e, claro, iniciar o pré-natal. São exames, vacinas, vitaminas, cuidados com a alimentação e, enfim, o parto. Porém, em meio a tantas atividades – quem disse que a maternidade é simples? – surge uma dúvida: “quem vai fazer o meu parto?”É comum ouvirmos “o doutor fulano fez meu parto”, ou “as enfermeiras ajudaram meu bebê a nascer”, ou até “se não fosse minha doula, eu não teria conseguido parir”. Nada disso. A resposta pode até surpreender, mas não deveria. Quem faz o parto é, nada mais, nada menos, do que… você! Sim, você! A equipe apenas acompanha. Não somos nem figurantes. Nosso lugar é “por trás das cortinas”.

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Marido, doula e obstetra de Flaviane dando suporte e apoio, durante o trabalho de parto de Flaviane, em Vitória/ES (Álbum de Família))

Até o dicionário confirma isso. O termo “obstetrícia” vem da palavra latina “obstetrix”, derivada do verbo “obstare”, que significa “estar ao lado“. Ou seja o obstetra apenas dá assistência em caso de necessidade – assim como qualquer outro profissional presente. Entretanto, nas últimas décadas, o parto deixou de ser um ato fisiológico, tornando-se um acontecimento médico, automático e cheio de intervenções.

Está na hora de nós, mães, gestantes, tentantes e mulheres, mudarmos essa cultura equivocada de “meu médico fez/vai fazer o parto” e recuperar o poder que nos foi tomado pela industrialização do nascimento. Aliás, essa é a essência básica da palavra “empoderamento” quando se trata de dar à luz aos nossos filhos: retomar o poder de escolha, de parir. Sem se importar, inclusive, com o peso/tamanho estimado do bebê.

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Relato publicado por Flaviane em seu perfil no Facebook (Reprodução Autorizada)

“Mas Natália, o médico disse que eu sou gorda/magra/alta/baixa/grande/pequena demais”. Eu queria entender em que momento da história a mulher se tornou “defeituosa” a ponto de ser completamente incapaz de parir. Precisamos resgatar esse ato que é tão natural quanto comer, respirar, pensar ou ir ao banheiro. Não importa se você contratou a “melhor equipe humanizada” ou a “doula mais experiente”. Você precisa ter acreditar em si mesma.

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Ah, tem um detalhe que a mãe do Bernardo frisou muito bem no relato. O bebê não é nem um pouco passivo no processo do nascimento. Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, ele não fica inerte, deixando a mãe fazer todo o trabalho sozinha. Enquanto o útero contrai (nem precisa fazer força!), este pequeno ser empurra e se movimenta para auxiliar na rotação – facilitada em posições verticalizadas/ fisiologicamente corretas. Então o mérito é de mãe e filho.

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Equipe assiste ao nascimento de mais um bebê (Foto: Grupo Coaracy)

Hora de agir

Claro que, existem casos em que há necessidade de intervenções (o parto normal, diferente de parto natural) e até cirurgia (cesárea). E foi exatamente para isso que o ginecologista obstetra estudou tanto e espero continua a estudar. Infelizmente, parece que alguns esqueceram sua função ou se recusam a apenas “assistir”. Por isso, trago as palavras da PhD em gestações de alto risco Melania Amorim para lembrá-los de seu importante papel: salvar vidas.

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Médica ginecologista obstetra, a paraibana enfatiza o papel do profissional com base em evidências científicas (Reprodução Facebook)

Inspiração

Encerro essa reflexão com um trecho do relato de Munique Therense, sobre seu Parto Domiciliar Planejado (PDP), na chegada de Olívia. A foto em destaque, inclusive, é dela em um momento de calma e força, rodeada por sua família (marido na piscina e mãe nos bastidores), sua doula e pelas enfermeiras obstetras equipe Celeste Parteria. Registro de Anne Lucy Fotografia.

“Senti o períneo começando a arder. Círculo de fogo recebido com exclamações dentro de mim. Estava chegando. Estávamos conseguindo. Não ia quebrar. Não ia rasgar ao meio. Ia parir e conhecer Olívia. Cabecinha saiu e contração parou. Alisei a cabeça (que achei pequena, considerando os pais que ela tem). Corpo em exclamação!!! Tinha a dor da passagem e tinha o espanto pela sensação de ter alguém passando de dentro de mim para fora. Tinha a vontade de que acabasse e tinha a euforia por estar conseguindo oferecer um nascimento do jeito que nós acreditávamos ser o melhor. O mais difícil havia ficado para antes do círculo de fogo. Outra contração e foi a vez do corpinho. Olívia nasceu às 22h20 da sexta de carnaval [2018]. Equipe e família em silêncio para que pudéssemos nos (re)conhecer. Nas imagens do vídeo dá para ver que Olívia tem um comportamento reflexo de abrir os braços, mas eu prefiro interpretar que ali foi nosso primeiro abraço ❤ Colo. Abraço. Uma vontade de que ela sentisse o melhor que a vida tem a oferecer naquele primeiro minuto.”

Lista  de referências para leitura:

O que é e para quê serve uma doula?

“Médico não faz parto, médico faz cesárea”

“Violência obstétrica: práticas rotineiras”

“Meu bebê é ‘grande’. Posso ter parto normal?

“Todos dizem que sou fraca, que não vou conseguir parir”

“Medo de se ‘rasgar’ no parto?”

“Parto natural x normal: qual a diferença?”

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