Parto natural x normal: Qual a diferença?

Segundo o dicionário, a palavra parto significa “ato de parir, de dar à luz”. Entretanto, apesar de a via de nascimento ser a mesma (vaginal) muitos desconhecem que parto natural e parto normal são bem distintos; ambos não retratam a mesma experiência. Porém, muitas mulheres confundem ambos com mais um tipo, o (a)normal. E você, sabe qual é a diferença entre parto natural, parto normal e parto (a)normal?

Parto (A)normal

Primeiro, precisamos lembrar que as gestantes do Brasil — e de praticamente toda a América Latina — têm acesso a um sistema obstétrico intervencionista e medicalizado, que faz jus ao termo violência obstétrica. Como consequência dessa realidade, o parto é encarado como algo assustador no imaginário popular. Sobram vídeos violentos com títulos de “parto natural/normal”.

Uma pequisa realizada nos Estados Unidos (“inspiradores” do modelo nacional), onde o índice  de cesariana, uso de anestesia epidural e de ocitocina artificial aumentaram  para 31,5%, 67% e 26% (dados entre 1997 e 2009), apresenta questões interessantes. O estudo ressalta a seguinte preocupação com o excesso de intervenções, em detrimento da fisiologia natural do corpo durante o parto:

“Em resposta ao aumento da medicalização do parto nos EUA, algumas mulheres resistem aos procedimentos médicos padronizados e, optam por um trabalho de parto e dar à luz sem intervenção médica. […] O objetivo deste estudo foi compreender e contextualizar as experiências de parto de mães pela primeira vez que planejavam ter um naturais parto (sem intervenção médica). Conclusão: As histórias das mulheres sugerem que nos estabelecimentos médicos, a mídia e sociedade precisam capacitar as mulheres grávidas e do parto por meio da criação de novas narrativas de trabalho e espaços positivos de relacionalidade. Além disso, os profissionais de saúde precisam examinar criticamente o seu uso do modelo médico de cuidado, respeitando as escolhas e agência das mulheres.” (“O cuidado de concordar: A investigação narrativa em tentativas das mulheres de parto natural”

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Mesmo que não seja utilizada durante algum momento do trabalho de parto, punção já muda o processo de ‘natural’ para ‘normal’ (Kuara Fotografia)

Fisiológico x Medicalizado

E qual é a diferença de um trabalho de parto não medicalizado? Há liberação natural de hormônios essenciais. Então, mesmo que seja necessária uma cirurgia de emergência (intra-parto), mãe e bebê são beneficiados por esse coquetel de substâncias durante o tempo em que vivenciaram o processo do nascimento. Nunca será um “sofrimento à toa”.

No relatório da Childbirth Connection “Fisiologia Hormonal do Parto, evidências e implicações para Mulheres, Bebês e Cuidados de Maternidade“, há uma explicação simples sobre o funcionamento e a importância de cada hormônio, tanto para a mãe, quanto para o bebê. Ambos são ajudados de muita formas:

  • Prepara o corpo da mulher para que ele esteja pronto para dar à luz;
  • Inicia e intensifica o ritmo, a duração e quantidade de contrações;
  • Prepara o bebê para o trabalho de parto e vida fora do corpo da mãe;
  • Informa aos seios para produzir o leite e deixa o bebê pronto para mamar/sugar;

Entregue-se aos hormônios

O principal de todos os hormônios liberados durante o trabalho de parto é a ocitocina/oxitocina. A sua função é produzir e intensificar as contrações do útero naturalmente, auxiliando na expulsão do bebê. Como é mais produzida quando estamos perto de quem amamos, foi batizada de “hormônio do amor”. Ela estreita o vínculo afetivo entre mãe e filho,  logo após o nascimento, quando ambos se “apaixonam”.

Também popular, a endorfina age como um analgésico natural, aliviando o estresse e a dor durante todo o processo. Ela evita que a dor se torne insuportável, proporcionando um ritmo suave para o nascimento. Já a prostaglandina favorece o preparo e a dilatação do colo do útero, ajudando na abertura da passagem para a descida/saída do bebê.

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Chamada de “hormônio do amor”, a ocitocina influencia nas contrações e auxilia no vínculo afetivo entre mãe e filho,  logo após o nascimento (Kuara Fotografia)

As catecolaminas são neurotransmissores que auxiliam mãe e bebê a ficar alertas e prontos para o nascimento, também protegendo o coração e o cérebro do bebê durante as contrações. Simultaneamente, a liberação de prolactina facilita a descida/produção do leite materno. Por isso, foi batizada de “hormônio dos cuidados maternais”.

A melatonina também tem um papel muito importante, em parceria com a ocitocina, para ajudar nas contrações. Ela é produzida naturalmente pelo corpo quando dormimos e, por isso, é conhecida como “hormônio do sono”. No caso do trabalho de parto, é preciso que a parturiente esteja em um local escuro e tranquilo para produzi-la.

“A escuridão é o requisito absoluto para a sua produção e liberação e a luz rapidamente suprime a sua síntese. Esta é a razão da concentração de melatonina no sangue e nas células ser 3 a 10 vezes maior à noite. Quando o indivíduo acorda e recebe a luz intensa do sol da manhã a melatonina se transforma em serotonina, hormônio do bom humor. A melatonina também é produzida na retina e no trato gastrointestinal.” (Roberto Franco do Amaral Neto, médico especialista em Patologia Clínica, no texto ‘Melatonina, mais do que um ‘hormônio do sono’!”

Mas essa liberação natural de hormônios pode ser inibida quando há medo e ansiedade, comuns em um ambiente no qual a mulher não se sinta segura/acolhida. Por isso, especialistas focados na fisiologia do parto e na obstetrícia com base em evidências científicas, alertam sobre o risco de uma internação precoce (salvo exceções).

A adrenalina, por exemplo, pode ajudar ou atrapalhar, conforme a fase do trabalho de parto (latente, ativa ou expulsiva). Antes da reta final, o excesso dela interfere na endorfina, resultando no aumento da dor. Mas no momento do nascimento, “dá gás” à mãe para fazer força e ajuda o bebê na amamentação na primeira hora de vida externa.

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Quando há qualquer intervenção necessária, como uso bem indicado de ocitocina sintética, o parto deixa de ser ‘natural’ e se torna ‘normal’ (Kuara Fotografia)

Quando o “natural” deve se tornar “normal”

A própria organização norte-americana que promove ações em prol da gestação saudável, parto ativo e maternidade consciente, aconselha às mulheres a procurar profissionais da saúde (médicos, obstetrizes e enfermeiras obstetras) que indiquem realização de mais exames ou intervenções somente se:

  •  Você ou seu bebê tem um problema sério detectado nos testes, ou tratamentos são importantes para sua saúde e segurança;
  •  Você tem um problema que não é urgente, mas simples, e as abordagens não estão ajudando o suficiente. Por exemplo: um médico ou parteira (obstetriz ou enfermeira obstétrica) deve encorajar a massagem, banho no chuveiro, trocas de posição para auxiliar no alívio da dor, antes de sugerir analgésicos.

Entre as vantagens do parto natural ou normal para a mulher, estão recuperação imediata; facilidade da “descida” do leite materno; volta do útero ao tamanho normal mais rapidamente e menor risco de infecção. Para o bebê, pulmões comprimidos ao passar pelo canal vaginal, expelindo grande parte das secreções, facilitando a respiração; e imunidade é fortalecida pelo contato com a microbiota da mãe. E, se houver necessidade de intervir, que seja com real indicação.

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Pressão da família

Porém, não podemos esquecer que, muitas vezes, a equipe de saúde também sofre pressão dessa cultura do “cesárea é melhor do que parto normal”. Por falta de conhecimento, famílias de parturientes insistem que o médico “acelere” o processo para a mulher “não sofrer” e o bebê “nascer logo”, como exemplifica o obstetra Ricardo Jones:

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Médicos que trabalham com evidências científicas são “encurralados” por familiares da gestante por querer evitar uma cirurgia desnecessária (Reprodução/Facebook)

 

Não corra para a maternidade!

Caso a gravidez seja de risco habitual (baixo risco), não haja sangramento preocupante ou a bolsa não estoure, a mulher pode esperar a evolução em casa. Mas não basta chegar à maternidade durante a fase ativa do trabalho de parto — de acordo com o site médico MDedge, dados atualizados indicam esse período somente a partir dos 6 cm de dilatação.

Segundo o mesmo estudo publicado na “Ob. Gyn News”, esta é a “medida” mais precisa para determinar se a mulher está em trabalho de parto ativo. Até pouco tempo, se pensava que o correto era 4 cm. Para evoluir de 6 cm a 7 cm de dilatação, por exemplo, a maioria das mulheres levou, em média, mais de meia hora, mas variou de 2 horas a mais de 2 horas.

“Isso faz sentido. O que está realmente acontecendo entre 6 e 7 ou 7 e 8 centímetros? Rotação interna. Muitas vezes esquecemos que a rotação interna e a descida do bebê são progressos. Apenas nos fixamos em dilatação cervical e acabam realizando uma cesariana de mulheres para ‘trabalho de parto estagnado’ num momento em que eles estão tendo progresso normal. […] “Basicamente, estamos tratando as mulheres que estão na fase latente do trabalho de parto, como se fossem ativos”. Tekoa King, professora clínica de Ciências da Saúde na Escola de Enfermagem da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

 

 

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Não importa se o local escolhido para dar a luz é no hospital ou em casa, mas se a equipe respeitará o tempo do corpo no trabalho de parto (Anne Lucy Fotografia)

Eu quero um parto natural… O que eu faço?

Se você tem o desejo de vivenciar um parto respeitando a fisiologia natural do nascimento, não basta querer. Recomenda-se procurar profissionais atualizados. Então, busque referências de médicos/enfermeiras obstetras e leia relatos de outras mães sobre as maternidades — no caso de Parto Domiciliar Planejado (PDP) tenha certeza que a equipe é qualificada. Se puder (e quiser), não esqueça da doula.

Paciência e acreditar em si mesma são essenciais, mas é necessário que os profissionais de saúde respeitem o tempo do corpo, com Medicina Baseada em Evidências (MBE). E como diz a criadora do movimento Parto Ativo, Janet Balaskas: “A parturiente deveria ser guiada mais por seus instintos, seu bem-estar e suas necessidades do que pelas conveniências hospitalares e pela moda obstétrica.”

Lista de referências para leitura:

Entenda o que é violência obstétrica e se você foi vítima

“O cuidado de concordar: A investigação narrativa em tentativas das mulheres de parto natural”

“Fisiologia Hormonal do Parto, evidências e implicações para Mulheres, Bebês e Cuidados de Maternidade”

‘Melatonina, mais do que um ‘hormônio do sono’!”

“Use dilatação de 6 cm para avaliar o progresso do trabalho de parto”

O que significa o termo “parto ativo”?

Vantagens do parto natural/normal para mãe e bebê

Saiba o que é necessário para ter um Parto Domiciliar Planejado (PDP)

Acreditar em si mesma na conquista de um parto natural/normal

Foto em Destaque: Kuara Fotografia

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